Fonte: Estadão -
Livio Oricchio
Raikkonen superou a pobreza na Finlândia e contou com o apoio familiar para se
tornar vencedor no automobilismo
Era uma vez um menino loirinho, magro, pobre, que acordou de noite com vontade
de fazer xixi. Mas como fazia muito frio no seu país, quase no polo norte, e o
banheiro era fora de casa, ele voltou para a cama. Disse a si mesmo que faria
de tudo para um dia dar aos pais uma casa onde eles não precisassem mais se
deslocar por 30 metros
na neve só para fazer xixi. O tempo passou, o menino cresceu, demonstrou raro
talento para pilotar carros de corrida, conquistou um título mundial, ficou
rico, famoso e ele e a família podem escolher em qual banheiro da sua imponente
residência desejam fazer xixi.
O que parece ser uma fábula quase singela é, na realidade, a história do atual
campeão do mundo, Kimi Matias Raikkonen, 28 anos, piloto da Ferrari. "É
uma sensação ótima olhar para trás e ver como as coisas mudaram em tão pouco
tempo. Meu pai e minha mãe trabalharam muito para que isso fosse
possível", diz o piloto, líder do campeonato, em profundo agradecimento
aos dois. Tanto que com o primeiro dinheiro que ganhou como piloto comprou o
terreno ao lado da sua casa localizada numa linda floresta de pinheiros na
periferia de Espoo, na Finlândia, e mandou construir uma nova para a família.
Masa é seu pai. Profissão: tratorista. Trabalhava na construção e reparo de
estradas. Sexta-feira encontrava-se no Autódromo de Hameenlinna, 100 quilômetros ao
norte de Espoo, apenas três graus de latitude abaixo do Círculo Polar Ártico.
Não iria deslocar pedras. Tampouco blocos de gelo. "Estou aqui para
correr. Sou piloto também", afirmou rindo, com orgulho, acompanhado da
simpática esposa Paula, mãe de Kimi.
E é verdade. Masa sempre quis competir, mas antes de pensar em si, a prioridade
foi o filho. Por isso investiu nele o que ganhava. "Ele trabalhou em três
locais distintos a fim de conseguir dinheiro para o Kimi continuar no
kart", lembra Paula. "Eu mexia com os tratores, possuía um táxi e à
noite fui recepcionista de restaurante", conta Masa, sem esconder a
origem. "Todo inverno era a mesma coisa: tínhamos de conseguir o dinheiro
que Kimi necessitava quando começassem as corridas. Ficamos em dúvida várias
vezes se seria possível", explica a mãe. Kimi correu de kart dos 7 aos 18
anos.
Agora Kimi financia o hobbie do pai. São pequenos protótipos equipados com
motor de motocicleta de 110 cavalos. "Comecei ano passado", diz Masa.
Terminou o campeonato que teve entre 40 e 45 pilotos na 13ª colocação. A mãe
lembra que em 2007 "quase fica louca".
Rami, irmão dois anos mais velho que Kimi, também gosta de velocidade e
disputou o Campeonato Finlandês de Fórmula 3. Na primeira temporada terminou em
terceiro. "Teve domingo de os três competirem. Que desgaste!", lembra
Paula.
A mãe garante que em casa Kimi está longe de ser o ?Iceman? - homem de gelo que
nunca manifesta emoções. "Não, não, não. Ele acabou de me ligar. Queria
saber do cachorro, o Axu." Um pastor alemão de belo porte. "O Kimi é
sempre carinhoso conosco, gentil."
Mas a fama do filho não é renegada pelo pai. Ao ser questionado sobre sua
frieza ao volante, Masa dispara: "Claro, eu sou o pai do Iceman." Na
pista, o pai de Kimi demonstrou nos treinos livres de sexta-feira ser
impetuoso, seu carro vem de lado nas curvas. Não ouviu o repórter comentar com
um amigo finlandês: "Aqui não tem essa de filho para pai. O filho domina
mais a técnica da pilotagem".
Tal destreza levou Kimi à conquista de seu grande sonho ano passado: ser
campeão do mundo. "Mudou, sim, nossa vida. Vejo, agora, como isso tinha
importância para o Kimi", comenta sua mãe. "Ele é um homem feliz. Ama
a Ferrari. Diz que a equipe é como uma família, há coração no que fazem",
explica o pai. "Na McLaren meu filho vivia triste. O carro quebrava toda
hora", emenda a mãe.
A postura impassível de Masa diante dos desafios faz com que ele e Paula não
assistam às corridas de Kimi juntos. "Não dá. Ela fica nervosa."
Paula concorda: "Se um está na sala o outro tem de ir para o quarto."
Domingo o casal vai ver o filho ao vivo nas ruas de Mônaco. Kimi alugou um iate
- com vários banheiros - e ficarão hospedados lá. Irão acompanhar a corrida do
deck superior da embarcação. Kimi não vai dormir no iate. Em 2004, ficou
enjoado e bateu nos treinos livres de sexta-feira e sábado. A McLaren o levou
para um hotel na marra.
Masa, Paula e Rami garantem não sentir medo de que Kimi sofra algum acidente.
"Fico nervosa, mas aprendi a conviver com isso desde o kart." Rami é
um fã do irmão. E Kimi dele. Repassou a Rami a tarefa de tomar conta de sua
frota de veículos, todos muito especiais. "Kimi construiu este imenso
galpão, aqui ao lado de onde crescemos, para colocar o que tem na
Finlândia", conta Rami. "Quando éramos pequenos brigávamos toda hora,
agora não mais." O Iceman tem supermotos de Marcus Walz, motos modelo
cross - das menores às mais sofisticadas -, motos de neve, karts, o utilitário
Hummer, preto, um Audi 4.2 TDI branco, além de uma McLaren (Fórmula 1) que
ganhou de Ron Dennis.
HERANÇA
O avô já começou o processo de ?catequese? dos netos. "Tenho dois filhos,
Justus, de 3 anos, e Tiitus, 2. Quando o primeiro nasceu, meu pai apareceu no
quarto do hospital com um kart de verdade", lembra Rami. "O Tiitus
ganhou o seu no aniversário de um ano. Hoje os dois meninos, de 3 e 2 anos, já
estão andando com karts especiais", falou Rami, impressionado com Masa.
"Ele organiza tudo do Kimi - troféus, macacões, capacetes - não temos mais
onde colocar as coisas." A casinha de madeira, onde tudo começou, agora é
uma espécie de almoxarifado das coisas do piloto da Ferrari.
A Finlândia é local de férias de Kimi. "Há seis anos moro na Suíça",
falou durante o GP da Turquia. "O que ele gosta de fazer aqui é viver como
uma pessoa comum, longe de tudo, sem ajuda até da tecnologia. Quando
conquistamos o título finlandês de kart, em 1998, e agora, ano passado, no seu
mundial de Fórmula 1, fomos para a Lapônia", conta seu amigo e mecânico da
época do kart, Kalle Jokinen. "Tenho uma casinha lá. O Kimi foi dirigindo
os 800 quilômetros
e ao chegar lá tivemos de cortar lenha, sob temperatura de 28 graus abaixo de
zero, e esperar umas duras horas até a casa esquentar."
Desligar da Fórmula 1 parece ser uma necessidade para Kimi. "Nunca falamos
disso quando estamos juntos", conta outro amigo, empresário em Helsinque.
"Nos reunimos, cinco, seis amigos, às vezes saio com minha namorada e Kimi
com Jenni (sua mulher), não comentamos nada de corridas." Pede anonimato
porque a imprensa finlandesa é, segundo disse, sensacionalista com Kimi.
O piloto já foi capa de várias publicações, sugerindo estar bêbado. "É
normal na Finlândia as pessoas beberem de sexta-feira e sábado. O Kimi não faz
nada diferente do que outros da sua idade fazem, diria até menos, mas gostam de
explorar isso. Se tivesse problema com bebida, como dizem, não teria sido
campeão do mundo de Fórmula 1." A mãe apóia o amigo do filho: "Fazem
de uma coisa pequena um drama, mas não nos atingem e nem a ele".
Jokinen relaciona-se com Kimi atualmente como fazia nos tempos difíceis do
início de carreira. "É a mesma pessoa. Esse é o seu ponto forte. Consegue
fazer seu talento trabalhar isolado, sem as pressões todas que cercam um
piloto."
MEMÓRIAS
E pensar que a trajetória de Kimi na F-1 começou porque seu empresário, David
Robertson, foi cobrar a Renault: "Kimi foi campeão britânico de Fórmula
Renault em 2000. Os franceses davam como prêmio um teste com seu carro de
Fórmula 1. ", explica Jokinen. "Robertson cobrou a empresa e eles
pediram que providenciasse uma equipe. Não seria na Renault.??
Robertson convenceu Peter Sauber. O treino serviria apenas para Kimi saber o
que era a Fórmula 1. Aquilo era um prêmio, não um teste. "Mas Kimi
mostrou-se de cara muito, muito rápido", conta seu ex-mecânico e amigo,
sempre presente.
Peter Sauber passou a vê-lo de outra forma, não como um piloto, como tantos.
"No fim do dia disse que gostaria de vê-lo em outro teste. Kimi foi e, de
novo, impressionou pela velocidade e constância. Não errava." Também por
coincidência, o suíço não estava contente com seus pilotos, Pedro Paulo Diniz e
Mika Salo. Havia, portanto, vagas em aberto na equipe. Nick Heidfeld, alemão,
ficou com uma delas. A outra seria uma aposta de risco. "De alto risco",
como o próprio Sauber afirmou tempos depois.
"Outro problema complexo que precisou ser contornado foi que Kimi havia
disputado, até então, apenas uma temporada e meia com carros da Fórmula
Renault, essa era toda sua experiência", relembra Jokinen. "Não
queriam dar a superlicença para ele, achavam que ele colocaria em risco os
demais pilotos. Keke Rosberg (finlandês também, campeão do mundo de 1982) foi
um dos que trabalharam contra Kimi correr de Fórmula 1." A licença foi
dada em razão da credibilidade de Sauber. "Tudo podia ter acabado ali e a
Fórmula 1 deixado de conhecer um grande talento. Mas felizmente as coisas
aconteceram", emociona-se, Jokinen.
Em Istambul, há pouco mais de uma semana, o consagrado Kimi surpreendeu:
"Meu contrato com a Ferrari termina no fim de 2009. Não sei o que irá se
passar, mas se tiver gostando ainda de correr, como agora, renovo, senão vou
ver o que fazer da vida". O piloto diz estar fora de cogitação, pelo menos
por enquanto, aprender italiano. "No, I don?t like to study. I see you later,
bye (Não, não gosto de estudar. Eu o vejo mais tarde, tchau)."


Sindicação